sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Linguagem, Língua, Linguística


Margarida Petter
"Uma das grandes escolas de iniciação da savana sudanesa, o Komo, diz que a Palavra (kuma) era um atributo reservado a Deus, que por ela criava as coisas: “o que Maa Ngala (Deus) diz é”. No começo, só havia um vazio vivo, vivendo da vida do Ser. Um que se chama a si mesmo Maa Ngala. Então ele criou Fan, o ovo primordial, que nos seus nove compartimentos alojava nove estados fundamentais da existência.
Quando esse ovo abriu, as criaturas que daí saíram eram mudas. Então para se dar um interlocutor, Maa Ngala tirou uma parcela de cada uma das criaturas, misturou-as e por um sopro de fogo que emanava dele mesmo, constituiu um ser à parte: o home, ao qual deu uma parte de seu próprio nome, Maa (home)."
Hampâté Bâ

"No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam a face doa bismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. E Deus disse: Exista a luz. E a luz existiu. E Deus viu que a luz era boa; e separou a luz das trevas. E chamou à luz dia, e às trevas noite. E fez-se tarde e manhã, (e foi) o primeiro dia. "
Gênesis, 1, 1-5

É notável a semelhança observada nas explicações em epígrafe sobre a origem do mundo: embora formuladas em épocas remotas por sociedades bem diversas, associam a palavra – a linguagem verbal – ao poder mágico de criar. O fascínio que a linguagem sempre exerceu sobre o homem vem desse poder que permite não só nomear/criar/transformar o universo real, mas também possibilita trocar experiências, falar sobre o que existiu, poderá vir a existir, e até mesmo imaginar o que não precisa nem pode existir. A linguagem verbal é, então, a matéria do pensamento e o veículo da comunicação social. Assim como não há sociedade sem linguagem, não há sociedade sem comunicação. Tudo o que se produz como linguagem ocorre em sociedade, para ser comunicado, e, como tal, constitui uma realidade material que se relaciona com o que lhe é exterior, com o que existe independentemente da linguagem. Como realidade material – organização de sons, palavras, frases – a linguagem é relativamente autônoma; como expressão de emoções, idéias, propósitos, no entanto, ela é orientada pela visão de mundo, pelas injunções da realidade social, histórica e cultural de seu falante.

A complexidade do fenômeno lingüístico vem há muito desafiando a compreensão dos estudiosos. No post da próxima semana, relataremos brevemente a história dessa busca para entender como o objeto de estudo – linguagem, língua – foi aos poucos se delineando e assumindo as configurações que hoje possui nos estudos lingüísticos.


Fonte:
Fiorin, José Luiz (org.) - Introdução à Linguística - Editora Contexto

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A história de Charlie


Era uma vez um grupo de homens-macaco. Os homens-macaco eram seres que haviam acabado de ultrapassar o estágio de símios, mas não tinham ainda atingido um ponto em que se poderia dizer que eram simplesmente humanos, porque não tinham eles uma linguagem. Todavia, esses homens-macaco tinham à sua disposição, exatamente como seus parentes mais próximos, gorilas e chimpanzés, um rico repertório de expressões sonoras. Os mais coléricos batiam a boca e rosnavam quando estavam irados; os vaidosos batiam no peito e rugiam quando queriam exibir-se. Eles batiam os dentes quando se divertiam, ronronavam quando se sentiam confortáveis e emitiam gritos que rompiam os ouvidos quando ansiosos.
Todas essas manifestações estavam longe de serem signos lingüísticos. Não serviam para a comunicação, como hoje a entendemos, mas eram, ao invés disso, a expressão natural de eventos internos: sintomas da vida emocional, comparáveis ao suor frio, o riso, as lágrimas ou o rubor. Alguém não comunica suas emoções por meio desses fenômenos, mas, em certas condições, pode revelar algo sobre as mesmas. É que os sintomas podem causar efeitos similares aos dos signos linguísticos.
Um dos integrantes do grupo era um homem-macaco que a natureza pusera em desvantagem: pequeno, mais fraco que os outros e ansioso ao máximo. Podemos chamá-lo de Charlie.
Sendo fraco, Charlie era muitas vezes forçado, desde a infância, a ser um tanto mais esperto que os outros. Ele tinha de compensar sua falta de força corpórea e seu baixo status social, sob o risco de ficar completamente dominado pelos demais. Em especial, os membros mais fortes do grupo afastavam-no regularmente da comida, não deixando que ficasse perto dos bocados mais suculentos. Mas, sendo ágil e esperto, Charlie conseguia ultrapassar alguns desse s obstáculos.
Um dia aconteceu algo que teria uma imensa importância para o futuro de toda raça dos homens-macaco. O grupo estava pacificamente amontoado em volta da comida, consumindo a presa capturada naquele dia. Como sempre, havia algumas pequenas brigas e empurrões ocasionais. Charlie foi de novo empurrado para a boda exterior, onde descobriu um par de olhos no meio da vegetação rasteira – os olhos de um tigre! Seus olhos encontram-se com os do animal... Morrendo de medo, ele grita aterrorizado. O grupo se dispersa instantaneamente. Cada qual trata de encontrar abrigo na árvore mais próxima, porque tal grito era sinal de enorme perigo. Estavam todos condicionados, desde a infância, a reagir assim.
Charlie ficou parado lá, como se congelado. Estar tão perto de morrer o havia tornado incapaz de fugir. Todavia, para seu grande espanto, os olhos piscavam para ele, de um modo nada parecido com o que faz um tigre, e seu proprietário foi-se embora irritado. O que ele havia visto como olhos de tigre pertencia a nada mais que um pacato porco. Charlie tinha sido vítima de sua vívida imaginação, alimentada por sua natural ansiedade.
Mas “vítima” é a palavra correta neste caso?
Quando Charlie olhou em volta, desconcertado, desamparado e um pouco envergonhado, viu que estava completamente sozinho, junto com a comida deixada para trás pelos outros. A expressão de medo em seu rosto deu lugar a um firme e travesso sorriso. Ele quase não podia acreditar.
Na medida em que passavam os dias e as semanas – e que, a cada vez, a disputa pelas melhores partes de alimento tinha lugar – ele era tentado a fazer intencionalmente o que lhe havia acontecido por acidente. O que Charlie não podia imaginar é que essa tentação marcava o fim do paraíso da comunicação natural.
O que tinha de acontecer finalmente aconteceu. Como sempre, ele tinha de ficar observando como aqueles grandalhões cabeludos repartiam as melhores partes entre si, enquanto ele, faminto, se sentava perto, tomado por uma raiva impotente. Foi então que sucumbiu à tentação. Deu o grito de angústia e, de novo, o grupo dispersou-se em matéria de segundo, incluindo os repugnantes grandalhões.
A melhor parte da comida ficara ali, montes de comida. Na sua agitação, Charlie, na verdade, nem pôde saboreá-la (talvez sua má consciência o impedisse). Mas o primeiro degrau tinha sido galgado e Charlie achou muito mais fácil da próxima vez. Com o tempo, tornou-se quase impiedoso. Achava prazer em executar seu truque e começou mesmo a abusar.
Como era inevitável, logo alguém suspeitou dele. Quando Charlie foi bobo o suficiente para gritar pela segunda vez durante uma mesma tarde, um outro macaco parou, depois de poucos saltos, olhou para trás e começou a devorar a comida. Charlie ficou um pouco irritado, mas não se incomodou, pois havia comida suficiente para ambos. Mas logo o cúmplice começou também a usar do expediente que aprendera e, como Charlie, a exagerar.
O número daqueles que não se deixavam enganar pela mentira – e, finalmente, o número de imitadores – tomou dimensões inflacionárias. A comunidade entrou num período extremamente crítico. Cada qual suspeitava dos demais. Os grandalhões tentaram restaurar a antiga ordem, penalizando todo abuso do grito de prevenção. Mas um conhecimento, uma vez adquirido, não pode ser jamais erradicado. Pelo contrário, era reforçado por todo novo abuso e toda tentativa de penalizar quem dele utilizava-se.
O abuso permanente do grito de prevenção representava um perigo para a existência física de todo o grupo, uma vez que a crença cega nele era necessária para a sobrevivência. Mas essa época havia definitivamente acabado. Os que quisessem sobreviver nesses tempos de corrupção tinham de ter bons ouvidos. Tinham de aprender a diferenciar o grito genuíno do fingido, algo que não se mostrou difícil para muitos deles. (...)

A história de Charlie não pretende ser realista, mas diz algo sobre a realidade. Ela mostra como a transição da comunicação natural para a humana poderia ter acontecido. Não se trata de uma reconstrução histórica, mas filosófica. Não são os fatos, mas apenas os dados lógicos da história que devem estar corretos, a saber:
1. As etapas que conduzem do grito natural de angústia ao ato intencional parecem plausíveis. A passagem de um ao outro não deve ter apresentado nem furos, nem saltos.
2. As pressuposições relativas às habilidades dos homens-macaco parecem ser realistas. A história seria sem valor caso se atribuísse a Charlie uma alta (e irrealista) capacidade intelectual.

(KELLER, Rudi. On language change: the invisible hand in language. London/New York: Routledge, 1994. p. 19-22)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Cecília Meireles - Biografia


Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901. Foi criada por sua avó materna, de origem portuguesa, Jacinta Benevides, pois ficou órfã dos pais muito cedo: seu pai faleceu três meses antes dela nascer e, antes que completasse três anos, faleceu também sua mãe.
Formou-se em 1917 como professora e dedicou-se ao magistério primário. A partir da década de 30, atuou como professora de Literatura Brasileira em algumas universidades. Viajou a vários países, em destaque Portugal e Índia.
Em 1921, casou-se com o pintor português Fernando Correa Dias, tendo com ele três filhas. Em 1940, já viúva, casou-se com o professor Heitor Grillo.
Publicou, em vida, livros de poesia, livros infantis, crônicas, estudo sobre o folclores brasileiro, livros de crítica literária, estudo sobre a educação, além de traduzir diversas obras da literatura ocidental e oriental.
Faleceu no Rio de Janeiro em 1994.
Sua poesia manifesta uma tentativa de compreender a existência humana, o sentido da vida, transitando entre o mundo material, sensível, apreendido sensorialmente, e o mundo espiritual, místico, onde se encontraria a essência das coisas. Em sua poesia, essas duas realidades se misturam, se completam, refletem-se, gerando questionamentos, ponderações, expressões dos sentimentos e estados de alma humanos, em um esforço de revelar, de forma lúcida, o mistério da vida. As raízes espirituais de seu pensamento misturam o imaginário popular, a filosofia ocidental e a filosofia das religiões orientais. Nesse último caso, assinalam-se o hinduísmo, o taoísmo e o budismo.
O conteúdo existencial da poesia de Cecília Meireles e a liberdade de pesquisa da poetisa a diversas fontes da cultura (em atitude de revisão crítica de nossa herança cultural), são características que contribuíram para a formação da segunda fase do Modernismo Brasileiro (1930 a 1945).

Em 1955, no jornal O Cruzeiro, o escritor João Candé escreve um delicado perfil de Cecília Meireles:
Nome: Cecília Meireles. – Nasceu no Distrito Federal. – Casada, tem três filhas e dois netos. – Altura, 1,64. – pesa 59 quilos e calça sapatos número 37. – É quase vegetariana. – Não fuma, não bebe, não joga. – Não pratica nenhum esporte, mas gosta muito de caminhar e acha que seria capaz de dar a volta ao mundo a pé. – Não gosta de futebol e raramente vai ao cinema. – Gosta de bom teatro. – Responde pontualmente todas as cartas que recebe, mas atrasa-se, às vezes, em agradecer livros, porque só agradece depois de os ler. – Adora música, especialmente canções medievais, espanholas e orientais. – Poetas preferidos: todos os bons poetas. – Prefere os pintores flamengos. – Dorme e acorda cedo. – Leu Eça de Queirós antes dos treze anos. – Escreveu seu primeiro verso aos 9 anos. – Estudou canto, violão, violino e, às vezes, desenha. – Se pudesse recomeçar a vida, gostaria de ser a mesma coisa, porém, melhor. – Seu primeiro livro publicado foi Espectros, tinha 16 anos. – Seu principal defeito: uma certa ausência do mundo. – Seu tormento: desejar fazer o bem a pessoas que precisam de auxílio e não o aceitam. – Nunca viu assombração, mas gostaria de ver. – Não tem medo de viajar de avião em viagens longas. – Gostaria de tornar a viajar para o Oriente e chegar até a China. – Pensa que poderia, pelo menos, ficar muito tempo no Mediterrâneo. – Coleciona objetos de arte popular. – Já colecionou xícaras e colheres de café. – Agora acha o café tão ruim que não vale a pena colecionar os acessórios. – Teve grande emoção quando chegou ao Açores, terra de seus antepassados. – Outra emoção grande: quando viu a sua “Elegia a Gandhi” traduzida em idiomas da Índia. – É o poeta brasileiro mais conhecido em Portugal. – Até agora não conseguiu gostar de Paris, embora admire a França. – Admira profundamente São Francisco de Assis, Gandhi e Vinoba Bhave. – Coisas que a horrorizam: tocar em papel carbono, ver comer ostras, aspirar fumaças de ônibus. – Coisas que ama: crianças, objetos antigos, flores, música de cravo, praia deserta, livros, livros, livros, noite com estrelas e nuvens ao mesmo tempo. – Acha que não tem medo da morte. – Gostaria de morrer em paz.

(Flávia Lins e Suzana Ruela Fuly, 2006)







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