sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A história de Charlie


Era uma vez um grupo de homens-macaco. Os homens-macaco eram seres que haviam acabado de ultrapassar o estágio de símios, mas não tinham ainda atingido um ponto em que se poderia dizer que eram simplesmente humanos, porque não tinham eles uma linguagem. Todavia, esses homens-macaco tinham à sua disposição, exatamente como seus parentes mais próximos, gorilas e chimpanzés, um rico repertório de expressões sonoras. Os mais coléricos batiam a boca e rosnavam quando estavam irados; os vaidosos batiam no peito e rugiam quando queriam exibir-se. Eles batiam os dentes quando se divertiam, ronronavam quando se sentiam confortáveis e emitiam gritos que rompiam os ouvidos quando ansiosos.
Todas essas manifestações estavam longe de serem signos lingüísticos. Não serviam para a comunicação, como hoje a entendemos, mas eram, ao invés disso, a expressão natural de eventos internos: sintomas da vida emocional, comparáveis ao suor frio, o riso, as lágrimas ou o rubor. Alguém não comunica suas emoções por meio desses fenômenos, mas, em certas condições, pode revelar algo sobre as mesmas. É que os sintomas podem causar efeitos similares aos dos signos linguísticos.
Um dos integrantes do grupo era um homem-macaco que a natureza pusera em desvantagem: pequeno, mais fraco que os outros e ansioso ao máximo. Podemos chamá-lo de Charlie.
Sendo fraco, Charlie era muitas vezes forçado, desde a infância, a ser um tanto mais esperto que os outros. Ele tinha de compensar sua falta de força corpórea e seu baixo status social, sob o risco de ficar completamente dominado pelos demais. Em especial, os membros mais fortes do grupo afastavam-no regularmente da comida, não deixando que ficasse perto dos bocados mais suculentos. Mas, sendo ágil e esperto, Charlie conseguia ultrapassar alguns desse s obstáculos.
Um dia aconteceu algo que teria uma imensa importância para o futuro de toda raça dos homens-macaco. O grupo estava pacificamente amontoado em volta da comida, consumindo a presa capturada naquele dia. Como sempre, havia algumas pequenas brigas e empurrões ocasionais. Charlie foi de novo empurrado para a boda exterior, onde descobriu um par de olhos no meio da vegetação rasteira – os olhos de um tigre! Seus olhos encontram-se com os do animal... Morrendo de medo, ele grita aterrorizado. O grupo se dispersa instantaneamente. Cada qual trata de encontrar abrigo na árvore mais próxima, porque tal grito era sinal de enorme perigo. Estavam todos condicionados, desde a infância, a reagir assim.
Charlie ficou parado lá, como se congelado. Estar tão perto de morrer o havia tornado incapaz de fugir. Todavia, para seu grande espanto, os olhos piscavam para ele, de um modo nada parecido com o que faz um tigre, e seu proprietário foi-se embora irritado. O que ele havia visto como olhos de tigre pertencia a nada mais que um pacato porco. Charlie tinha sido vítima de sua vívida imaginação, alimentada por sua natural ansiedade.
Mas “vítima” é a palavra correta neste caso?
Quando Charlie olhou em volta, desconcertado, desamparado e um pouco envergonhado, viu que estava completamente sozinho, junto com a comida deixada para trás pelos outros. A expressão de medo em seu rosto deu lugar a um firme e travesso sorriso. Ele quase não podia acreditar.
Na medida em que passavam os dias e as semanas – e que, a cada vez, a disputa pelas melhores partes de alimento tinha lugar – ele era tentado a fazer intencionalmente o que lhe havia acontecido por acidente. O que Charlie não podia imaginar é que essa tentação marcava o fim do paraíso da comunicação natural.
O que tinha de acontecer finalmente aconteceu. Como sempre, ele tinha de ficar observando como aqueles grandalhões cabeludos repartiam as melhores partes entre si, enquanto ele, faminto, se sentava perto, tomado por uma raiva impotente. Foi então que sucumbiu à tentação. Deu o grito de angústia e, de novo, o grupo dispersou-se em matéria de segundo, incluindo os repugnantes grandalhões.
A melhor parte da comida ficara ali, montes de comida. Na sua agitação, Charlie, na verdade, nem pôde saboreá-la (talvez sua má consciência o impedisse). Mas o primeiro degrau tinha sido galgado e Charlie achou muito mais fácil da próxima vez. Com o tempo, tornou-se quase impiedoso. Achava prazer em executar seu truque e começou mesmo a abusar.
Como era inevitável, logo alguém suspeitou dele. Quando Charlie foi bobo o suficiente para gritar pela segunda vez durante uma mesma tarde, um outro macaco parou, depois de poucos saltos, olhou para trás e começou a devorar a comida. Charlie ficou um pouco irritado, mas não se incomodou, pois havia comida suficiente para ambos. Mas logo o cúmplice começou também a usar do expediente que aprendera e, como Charlie, a exagerar.
O número daqueles que não se deixavam enganar pela mentira – e, finalmente, o número de imitadores – tomou dimensões inflacionárias. A comunidade entrou num período extremamente crítico. Cada qual suspeitava dos demais. Os grandalhões tentaram restaurar a antiga ordem, penalizando todo abuso do grito de prevenção. Mas um conhecimento, uma vez adquirido, não pode ser jamais erradicado. Pelo contrário, era reforçado por todo novo abuso e toda tentativa de penalizar quem dele utilizava-se.
O abuso permanente do grito de prevenção representava um perigo para a existência física de todo o grupo, uma vez que a crença cega nele era necessária para a sobrevivência. Mas essa época havia definitivamente acabado. Os que quisessem sobreviver nesses tempos de corrupção tinham de ter bons ouvidos. Tinham de aprender a diferenciar o grito genuíno do fingido, algo que não se mostrou difícil para muitos deles. (...)

A história de Charlie não pretende ser realista, mas diz algo sobre a realidade. Ela mostra como a transição da comunicação natural para a humana poderia ter acontecido. Não se trata de uma reconstrução histórica, mas filosófica. Não são os fatos, mas apenas os dados lógicos da história que devem estar corretos, a saber:
1. As etapas que conduzem do grito natural de angústia ao ato intencional parecem plausíveis. A passagem de um ao outro não deve ter apresentado nem furos, nem saltos.
2. As pressuposições relativas às habilidades dos homens-macaco parecem ser realistas. A história seria sem valor caso se atribuísse a Charlie uma alta (e irrealista) capacidade intelectual.

(KELLER, Rudi. On language change: the invisible hand in language. London/New York: Routledge, 1994. p. 19-22)

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails