quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Feminismo e literatura: discurso e história


Durante o carnaval tive a excepcional oportunidade de participar do 3.° Festival de Verão da UFMG: Sentidos do Conhecimento. O curso de estudos que escolhi foi Aprendizagens e prazeres: A escrita das mulheres na literatura contemporânea, ministrado pela professora Sandra Regina Goulart Almeida, docente da UFMG e especialista nesta área.

Por meio de um viés comparativo, pudemos desfrutar e discurtir, com base em obras da literatura brasileira e da literatura de língua inglesa, linhas temáticas que abordam aspectos como: "uma literatura toda sua", "a poética da melancolia", "rupturas poéticas", "mulheres desdobráveis" e "outras travessias". Virgínia Woolf, Constância Lima Duarte, Charlotte Gilman, Sylvia Plath, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Ana Miranda e Conceição Evaristo foram algumas das escritoras que tivemos o prazer/incômodo de ler e que nos ofereceram riquíssimos subsidíos para estudo literário e reflexão sobre os mecanismos sociais que permeiam a vida humana.


Ainda influenciada por esse curso, gostaria de destacar aqui dois pontos de enfoque - em momentos distintos da história - que ajudam a contextualizar os anseios, os dilemas e as lutas das mulheres frente à sociedade patriarcal, expressas através da literatura de autoria feminina.


O primeiro enfoque fica por conta do projeto de pesquisa desenvolvido por Constância Lima Duarte a respeito da trajetória do movimento feminista no Brasil e da literatura de autoria feminina.


"Feminismo e literatura: Discurso e história (1)

'O tabu do feminismo'
Diferente do que ocorre em outros países, existe entre nós uma forte resistência em torno da palavra "feminismo". Se lembrarmos que feminismo foi um movimento legítimo que atravessou várias décadas, e que transformou as relações entre homens e mulheres, torna-se (quase) inexplicável o porquê de sua desconsideração pelos formadores de opinião pública. Pode-se dizer que a vitória do movimento feminista é inquestionável quando se constata que suas bandeiras mais radicais tornaram-se parte integrante da sociedade, como, por exemplo, mulher freqüentar universidade, escolher profissão, receber salários iguais, candidatar-se ao que quiser.... Tudo isso, que já foi um absurdo sonho utópico, faz parte de nosso dia a dia e ninguém nem imagina mais um mundo diferente.
Mas se esta foi a vitória do movimento feminista, sua grande derrota, a meu ver, foi ter permitido que um forte preconceito isolasse a palavra, e não ter conseguido se impor como motivo de orgulho para a maioria das mulheres. A reação desencadeada pelo antifeminismo foi tão forte e competente, que não só promoveu um desgaste semântico da palavra, como transformou a imagem da feminista em sinônimo de mulher mal amada, machona, feia e, a gota d'água, o oposto de "feminina". Provavelmente, por receio de serem rejeitadas ou de ficarem "mal vistas", muitas de nossas escritoras, intelectuais, e a brasileira de modo geral, passaram enfaticamente a recusar tal título. Também é uma derrota do feminismo permitir que as novas gerações desconheçam a história das conquistas femininas, os nomes das pioneiras, a luta das mulheres de antigamente que, de peito aberto, denunciaram a discriminação, por acreditarem que, apesar de tudo, era possível um relacionamento justo entre os sexos.

'As ondas do feminismo'
Mas se a história do feminismo não é muito conhecida, deve-se também ao fato de ser pouco contada. A bibliografia, além de limitada, costuma abordar fragmentariamente os anos de 1930 e a luta pelo voto, ou os anos de 1970 e as conquistas mais recentes. Na maior parte das vezes, entende-se como feminismo apenas o movimento articulado de mulheres em torno de determinadas bandeiras; e tudo o mais fica relegado a notas de rodapé.
Penso que o "feminismo" poderia ser compreendido em um sentido amplo, como todo gesto ou ação que resulte em protesto contra a opressão e a discriminação da mulher, ou que exija a ampliação de seus direitos civis e políticos, seja por iniciativa individual, seja de grupo. Somente então será possível valorizar os momentos iniciais desta luta – contra os preconceitos mais primários e arraigados – e considerar aquelas mulheres, que se expuseram à incompreensão e à crítica, nossas primeiras e legítimas feministas.
Considerando que essa história teve início nas primeiras décadas do século XIX – o momento em que as mulheres despertam do "sono letárgico em que jaziam", segundo Mariana Coelho
–, quero sugerir a existência de pelo menos quatro momentos áureos na história do feminismo brasileiro. Longe de serem estanques, tais momentos conservam uma movimentação natural em seu interior, de fluxo e refluxo, e costumam, por isso, ser comparados a ondas, que começam difusas e imperceptíveis e, aos poucos (ou de repente) se avolumam em direção ao clímax – o instante de maior envergadura, para então refluir numa fase de aparente calmaria, e novamente recomeçar.
As décadas em que esses momentos-onda teriam obtido maior visibilidade, na minha avaliação, ou seja, em que estiveram mais próximos da concretização de suas bandeiras, seriam em torno de 1830, 1870, 1920 e 1970. Foram necessários, portanto, cerca de cinqüenta anos entre uma e outra, com certeza ocupados por um sem número de pequenas movimentações de mulheres, para permitir que as forças se somassem e mais uma vez fossem capazes de romper as barreiras da intolerância, e abrir novos espaços. (...) "

Ler mais em...

O sengundo enfoque está direcionado para o filme brasileiro Desmundo (2003) (2), baseado na obra de mesmo nome da autora Ana Miranda (vide foto acima). A história foi construída hipoteticamente a partir de uma carta do padre Manuel da Nóbrega enviada ao rei de Portugal, D. João, em 1552.

A' El-Rei D. João (1552)

JESUS

"Já que escrevi a Vossa Alteza a falta que nesta

terra ha de mulheres, com quem os homens casem e vivam em serviço de Nosso senhor, apartados

dos peccados, em que agora vivem, mande Vossa

Alteza muitas orphãs, e si não houver muitas,

venham de mistura dellas e quaesquer, porque são

tão desejadas as mulheres brancas cá, que quaes-

quer farão cá muito bem à terra, e ellas se ganha-

rão, e os homens de cá apartar-se-hão do peccado."

"Numa noite estrelada do ano de 1555 chega ao Brasil uma caravela trazendo uma leva de órfãs mandadas pela rainha de Portugal para se casarem com os cristãos que aqui habitavam. Com a mente repleta de sonhos e fantasias, elas pisam pela primeira vez a terra distante, onde um mundo rude, belíssimo, violento, as espera. A história dessas órfãs é contada por uma delas, Oribela, com sua visão mítica, espiritual, sensual, uma jovem que costuma ter visões noturnas, ímpetos de partir e muito medo da paixão que habita sua alma. Seu relato íntimo revela, todavia, não apenas as aspirações e angústias de sua desamparada existência feminina, mas a brutalidade do desmundo que a cerca, o encontro de povos em guerra, o conflito entre seres diferentes, a intolerância religiosa, os terrores que encerra o desconhecido.
Suas 'palabras pronunciadas con el corazón caliente' formam um suntuoso relato arrancado das partes mais inconscientes, mais misteriosas, de um ser que atravessou não apenas o oceano Atlântico, mas a linha imaginária que separa a realidade e o sonho, a liberdade e a escravidão, o amor e o ódio, a virtude e o pecado, o corpo e o espírito. (...)

A literatura passa a traduzir uma história que não se quer imóvel. Através da narrativa de Oribela, o leitor ingressa em formas de ação e de pensamento da época, deparando-se com aspectos tais como existência feminina, religiosidade, nova terra, amor e sexualidade. Por meio do relato da personagem fictícia, torna-se possível pensar no que ela possui de comum com outros indivíduos que viveram no século XVI, que, por sua vez, herdaram sua forma de ver o mundo a partir de estruturas mentais construídas culturalmente. (...)"

Vale a pena ler o livro e ver o filme, pois ambos apresentam alguns pontos divergentes, o que não deixa de ser menos instigante. O filme é denso e foi feito com muito cuidado e arte, chamando a atenção pela sua belíssima fotografia.

Curiosidade: como o português dito pelos personagens no filme é arcaico, da época em que os acontecimentos mostrados ocorrem, o filme possui legendas em português atual.


FONTE:
(1) Estudos Avançados
Print ISSN 0103-4014
Estud. av. vol.17 no.49 São Paulo Sept./Dec. 2003
doi: 10.1590/S0103-40142003000300010
MULHER, MULHERES
Feminismo e literatura no Brasil
Autora: Constância Lima Duarte/ UFMG

(2)http://www2.uol.com.br/revistadecinema/edicao37/desmundo/index.shtml

http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Contemporanea/Ana_Miranda_Desmundo_resumo_e_comentarios.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Desmundo

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails