sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Enigma de Kaspar Hauser



Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?
(Prólogo do Filme O Enigma de Kaspar Hauser de Herzog, 1974)
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No primeiro semestre do Curso de Letras tomei conhecimento desse impressionante caso - um caso verídico - envolvendo aquisição da linguagem e representação da realidade. Como tema de estudo para a disciplina "Introdução aos Estudos da Linguagem", a professora Regina Péret Dell'Isola apresentou o filme "O Enigma de Kaspar Hauser" do diretor Werner Herzog (1974), assunto que até hoje desperta grande interesse da minha parte.
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Quem tiver oportunidade, não deixe de assistir o filme, que é surpreendente e revela como se deu o processo de integração de Kaspar Hauser na sociedade alemã do século XIX, um período marcado pela perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista.
Seguem abaixo a biografia de Kaspar Hauser, o link com o estudo do caso desenvolvido pela professora Maria Clara Lopes Saboya (FEUSP) - um estudo bastante interessante e que vale a pena ser lido! - e links com pequenos trechos do filme.
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"O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, em maio de 1828. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o capitão da cavalaria local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como fora seu pai.
Ficou-se sabendo mais tarde (quando K. Hauser aprendeu a falar) que uma pessoa, que ele não conheceu, tratava dele enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto ele dormia.
Acolhido na casa de um professor que se ocupou de iniciar sua socialização, é assassinado em 1833 (o filme de Werner Herzog sugere que K. Hauser foi assassinado pelo próprio pai).
Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um "garoto selvagem," apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes, descritas tanto no filme de Herzog, quanto na obra de Masson: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.
Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa.
Kaspar Hauser tornou-se uma espécie de atração por sua história de vida diferente. Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. O filme de Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais (um anão, um índio e uma criança autista), em exposição num circo.
Um ano depois de ter chegado a Nuremberg, foi ferido e recebeu um grande corte na fronte. Em dezembro de 1833, recebeu outro ferimento que lhe seria fatal. Herzog sugere, em seu filme, que os dois ferimentos sofridos por K. Hauser foram tentativas de assassiná-lo. Masson diz, em seu livro, que em dezembro de 1833, K. Hauser foi atraído para uma emboscada, com a promessa de receber informações sobre seu nascimento. No local, em vez disso, recebeu uma facada no peito, morrendo três dias depois."
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"O caso de Kaspar Hauser serve para ilustrar o erro básico de uma organização social fundada sobre os princípios do racionalismo positivista.
Mostra-nos que a "humanização" do homem, entendida como socialização, não é uma decorrência biológica da espécie, mas conseqüência de um longo processo de aprendizado com o grupo social.
Através desse processo, o indivíduo se integra no grupo em que nasceu, assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos desse grupo. Participando da vida em sociedade, aprendendo suas normas, valores e costumes, o indivíduo está se socializando, reprimindo suas características instintivas e animais e desenvolvendo as sociais e culturais, fazendo, assim, a 'passagem da natureza para a cultura', aprendendo a ver com os 'óculos sociais', tornando-se, como nos disse C. Dickens, 'um animal de costumes'."
( O Enigma de Kaspar Hauser (1812?-1833): uma abordagem psicossocial por Maria Clara Lopes Saboya) ... Ler mais em... http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-65642001000200007&script=sci_arttext


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