domingo, 15 de fevereiro de 2009

O que é a linguagem?


“Ao estudarmos a linguagem humana aproximamo-nos do que se poderia chamar a ‘essência humana’, as qualidades distintivas da mente que são, tanto quanto sabemos, exclusivas do homem.”
Noam Chomsky, Linguagem e pensamento

Façam o que fizerem quando se encontram – joguem, lutem, amem ou fabriquem automóveis – as pessoas também falam. Falamos como os nossos amigos, colegas, mulheres e maridos, amantes, professores, pais, sogros. Falamos com pessoas desconhecidas, falamos frente a frente e pelo telefone. E toda a gente responde falando. A televisão e a rádio intensificam esta torrente de palavras. Assim, raro é o momento das nossas vidas em que, acordados, estamos longe das palavras e mesmo nos nossos sonhos falamos e falam conosco. Até falamos sem termos quem nos responda. Alguns falam alto enquanto dormem. Falamos com os animais e, às vezes, falamos até mesmo para nós próprios. Somos os únicos animais que fazemos isso – falar.
A linguagem está em toda a parte, impregna nossos pensamentos e é intermediária em nossas relações com os outros. O volume esmagador de conhecimentos humanos é guardado e transmitido pela linguagem. A linguagem é, de tal modo, onipresente que a aceitamos e sabemos que sem ela a sociedade, tal como a conhecemos, seria impossível.
O que nos leva a questionar: seria o pensamento também uma forma de linguagem? Que relação podemos traçar entre linguagem e pensamento? E qual o papel da linguagem no conhecimento humano?
Para responder a essas perguntas, há algumas conclusões a que chegaram os lingüistas:
a) a palavra é sempre uma operação do pensamento, no sentido da experiência que o sujeito faz das significações das palavras, tanto sob a forma de conceitos como sob a forma de representações;
b) linguagem é um pensamento em potencial, visto que o sinal lingüístico – a palavra – possui uma significação.
A linguagem é, portanto, uma unidade verbal e mental.
Quanto ao pensamento – o pensamento humano – ele opera-se sempre numa língua determinada, visto que o pensamento é irrealizável sem os sinais da linguagem. Entretanto, não se segue daí que o pensamento humano seja unicamente redutível aos conceitos ligados aos sinais lingüísticos: é também composto de um elemento representativo que não é idêntico à linguagem, ainda que dependa dela por diversos modos. Assim, pois, é complexa a relação do pensamento e da linguagem e, ainda que seja indissolúvel o seu liame, não se pode identificar o pensamento com a linguagem.
Enquanto ponto de partida social do pensamento individual, a linguagem é mediadora entre o que é social, dado, e o que é individual, criador, no pensamento individual. Na realidade, a sua mediação exerce-se nos dois sentidos: não só transmite aos indivíduos a experiência e o saber das gerações passadas, como também se apropria dos novos resultados do pensamento individual, a fim de os transmitir – sob a forma de um produto social – às gerações futuras.
Mas essa herança das gerações passadas exerce uma ação onipotente e das mais despóticas sobre a nossa visão atual do mundo, desde a sua articulação na percepção sensitiva até aos matizes emocionais do nosso pensamento cognitivo.
É assim que a linguagem socialmente transmitida ao indivíduo humano forma a base necessária do seu pensamento, a base que o liga aos outros membros da mesma comunidade lingüística e na qual se funda a sua criação intelectual individual.
Com efeito, se o sociólogo do conhecimento enuncia que captamos sempre o mundo (social, em particular) sob um ângulo de visão concreto, determinado pelos interesses de um dado grupo social, poderemos alargar essa aproximação, introduzindo-lhe o ângulo de visão determinado pelo papel da linguagem no conhecimento e no desenvolvimento da cultura. Pois o problema do ângulo de visão, o problema do condicionamento social refere-se, não só ao conhecimento em geral, mas também às atitudes humanas e aos seus estereótipos de comportamento.


Fonte:
SCHAFF, Adam – Linguagem e conhecimento – Capítulo III - Livraria Almedina
LANGACKER – A natureza da linguagem humana – Capítulo I – p. 11-50

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