segunda-feira, 30 de março de 2009

O livro é um mundo


Mimèsis*: termo aristotélico traduzido por “imitação” ou “representação”, “verossimilhança”, “ficção”, “ilusão”, ou mesmo “mentira”, e, é claro, “realismo”, “referente” ou “referência”, “descrição”.

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“De que fala a literatura?” - é a pergunta que lanço para reflexão sobre o papel da literatura como veículo de conhecimento para a humanidade.

Desde a Poética de Aristóteles, o homem detém-se em analisar as relações entre a literatura e a realidade, entre a ficção e o mundo que nos cerca.

Por isso, considerando os três pilares que envolvem a questão:

– o texto (como sendo a “representação” do mundo)
– o autor (como deflagrador da possível “intenção” do texto)
– o leitor (como receptor e “co-criador” da obra a partir da formulação de significados diversos – pontos de vista e visão de mundo)

e mais

“a momentânea suspensão voluntária da incredulidade” (willing suspension of disbelief for the moment, which constitutes poetic faith), descrita por Coleridge como o contrato realista que liga autor e leitor na suspensão da descrença para instaurar a fé poética no texto,

achei interessante transcrever aqui alguns trechos do livro “O Demônio da Teoria – Literatura e Senso Comum”, de Antoine Compagnon (2003), a respeito da mimèsis* (vide sinônimos acima) e sua categorização ao longo dos tempos.

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Em Platão, na República, a mimèsis foi considerada subversiva, por colocar em perigo a união social, e por fazer passar a cópia por original, afastando a verdade do cotidiano. Os partidários da mimèsis, apoiando-se tradicionalmente na Poética de Aristóteles, diziam que a literatura imitava o mundo; que, como no teatro, ela dava a ilusão de que a narrativa era conduzida por um outro que não o autor e que, em razão de sua influência nefasta sobre a educação dos “guardiões”, os poetas deveriam ser expulsos da Cidade em benefício da ordem pública.
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Já os adversários da mimèsis (em geral os teóricos modernos da poesia), vendo, sobretudo na Poética uma técnica de representação, retrucavam que ela não possuía uma exterioridade e apenas fazia pastiche da literatura. Diziam que a mimèsis é repressiva, pois consolida o laço social, por estar ligada à ideologia (a doxa) da qual ela é instrumento.
Assim, a teoria literária é inseparável de uma crítica da ideologia, que teria como propriedade a certeza, isto é, ser natural ao passo que, na verdade, é cultural. A mimèsis faz passar a convenção por natureza. Pretensa imitação da realidade, tendendo a ocultar o objeto imitante em proveito do objeto imitado, ela está tradicionalmente associada ao realismo, e o realismo ao romance, e o romance ao individualismo, e o individualismo à burguesia, e a burguesia ao capitalismo: a crítica da mimèsis é, pois, uma crítica da ordem capitalista. Do Renascimento ao final do século XIX, o realismo identificou-se sempre, cada vez mais, ao ideal de precisão referencial da literatura ocidental. Através das transformações de estilo, a ambição da literatura, fundada na mimèsis, era relatar de maneira cada vez mais autêntica a verdadeira experiência dos indivíduos, divisões e conflitos opondo o indivíduo à experiência comum. A crise da mimèsis, como a crise do autor (a “intenção” do texto não está em poder exclusivo do autor, pois a obra é reescrita pelo leitor), é uma crise do humanismo literário, e, ao final do século XX, a inocência não é mais permitida. Essa inocência relativa à mimèsis baseava-se na teoria marxista do reflexo para analisar o realismo como ascensão do individualismo contra o idealismo. Recusar o interesse pelas relações entre literatura e realidade, ou tratá-las como uma convenção, é, pois, de alguma maneira, adotar uma posição ideológica, antiburguesa e anticapitalista. Mais uma vez a ideologia burguesa é identificada a uma ilusão lingüística: pensar que a linguagem pode copiar o real, que a literatura pode representá-lo fielmente, como um espelho ou uma janela sobre o mundo, segundo as imagens convencionais do romance.
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Renegando as correntes anteriores, a reabilitação da mimèsis, passa por uma terceira leitura da Poética, com a obra de Baktine, contrapondo-se aos formalistas russos, e reintroduzindo a realidade, a história e a sociedade no texto, como uma estrutura complexa de vozes, um conflito dinâmico de línguas e de estilos heterogêneos.
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Observaremos que, diferentemente de Platão, que aí via uma cópia da cópia, logo, uma degradação da verdade, a mimèsis não era passiva, mas ativa. Segunda a definição do início do Capítulo IV da Poética, a mimèsis constituía uma aprendizagem:
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Desde a infância, os homens têm, inscrita em sua natureza, [...] uma tendência à mimeishthai [imitar ou representar] – e o homem se distingue dos outros animais porque é naturalmente inclinado à mimeishthai [imitar ou representar] e recorre à mimèsis em seus primeiros aprendizados. (1448b 6)s
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A mimèsis é, pois, conhecimento, e não cópia ou réplica idênticas: designa um conhecimento próprio ao homem, a maneira pela qual ele constrói, habita o mundo. Reavaliar a mimèsis, apesar do opróbio que a teoria literária lançou sobre ela, exige primeiro que se acentue seu compromisso com o conhecimento, e daí com o mundo e a realidade.
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Atribuindo uma função de reconhecimento ao leitor ou ao espectador (de um drama/peça teatral), a mimèsis corrobora para produzir um efeito fora da ficção, isto é, no mundo. O reconhecimento transforma o movimento linear e temporal da leitura na apreensão de uma forma unificante e de uma significação simultânea.
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Quando o leitor de um romance se pergunta: “o que vai acontecer nessa história?”, sua questão se volta para o desenrolar da intriga, e, especialmente, para este aspecto crucial da intriga que Aristóteles chama de reconhecimento ou anagnôrisis. Mas ele pode igualmente se perguntar: “O que significa esta história?”. Essa questão diz respeito a dianoia (a intenção principal) e indica que há elementos de reconhecimento nos temas tanto quanto nas intrigas.
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Em outras palavras, ao lado do reconhecimento feito pelo herói na intriga (ex: Édipo compreendendo que matara o pai e desejara a mãe), um outro reconhecimento intervém – ou o mesmo – o do tema pelo leitor na recepção da intriga. O leitor se apropria da anognôrisis como reconhecimento da forma total e da coerência temática. O momento do reconhecimento é, pois, para o leitor ou o espectador, aquele no qual o projeto inteligível da história é apreendido retrospectivamente, aquele no qual a relação entre o início e o fim torna-se manifesta, precisamente quando o muthos (composição dos acontecimentos numa intriga linear ou numa sequência temporal) tornar-se dianoia, forma unificante, verdade geral. O reconhecimento pelo leitor, para além da percepção da estrutura, está subordinado à reorganização desta última a fim de produzir uma coerência temática e interpretativa.
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Assim, na ficção se realizam os mesmos atos de linguagem que no mundo real: perguntas e promessas são feitas, ordens são dadas. Mas são atos fictícios, concebidos e combinados pelo autor para compor um único ato de linguagem real: a prosa, o poema. A literatura explora as propriedades referenciais da linguagem; seus atos de linguagem são fictícios, mas, uma vez que entramos na literatura, que nos instalamos nela, o funcionamento dos atos de linguagem fictícios é exatamente o mesmo que o dos atos de linguagem reais, fora da literatura.
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O “aprendizado mimético” está, pois, ligado ao reconhecimento que é construído na obra e experimentado pelo leitor. A narrativa é nossa maneira de viver no mundo -, representa nosso conhecimento prático do mundo e envolve um trabalho comunitário de construção de um mundo inteligível. A produção da intriga, ficcional ou histórica, é a própria forma do conhecimento humano distinto do conhecimento lógico-matemático, mais intuitivo, mais presunçoso, mais conjetural. Ora, esse conhecimento está relacionado ao tempo, porque a narrativa dá forma à sucessão informe e silenciosa dos acontecimentos, estabelece relações entre os inícios e os fins. Do tempo, a narrativa faz temporalidade, isto é, essa estrutura da existência que advém à linguagem da narrativa; e não há outro caminho em direção ao mundo, outro acesso ao referente senão contando histórias: “O tempo torna-se humano na medida em que é articulado a um modo narrativo, e a narrativa atinge sua significação plena quando se torna uma condição da existência temporal.”
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Assim, a mimèsis não é apresentada como cópia estática, ou como quadro, mas como atividade cognitiva, configurada como experiência do tempo, configuração, síntese, práxis dinâmica que, ao invés de imitar, produz o que ela representa, amplia o senso comum e termina no conhecimento.”
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Por isso, o título deste post “o livro é um mundo”.

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FONTE:

COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria - literatura e senso comum. Editora UFMG, 2003.


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