domingo, 22 de março de 2009

"O que é literatura?"

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Na introdução do livro Teoria da Literatura de Terry Eagleton (1983), encontramos alguns trechos bastante interesses acerca do assunto “O que é literatura?”. O que podemos destacar é que, dentro dos estudos literários, essa não é uma pergunta fácil de ser respondida, como poderia parecer à primeira vista. De fato, há muitos pontos a serem considerados que impedem que a tarefa seja encarada de modo simples.
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Eagleton começa explicando que uma forma possível seria definir literatura como sendo a escrita “imaginativa”, no sentido de ficção – escrita essa que não é literalmente verídica. Porém, a distinção entre “fato” e “ficção” não ajuda muito, pois a distinção entre ambas é muitas vezes questionável. Basta pensarmos em verdade “histórica” e verdade “artística” para percebermos quão tênue é a linha que separa ambas. Por exemplo, “No inglês de fins do séc. XVI e princípios do séc. XVII, a palavra ‘novel’ foi usada, ao que parece, tanto para os acontecimentos reais quanto para os fictícios, sendo que até mesmo as notícias de jornal dificilmente poderiam ser consideradas fatuais.” “Certamente Gibbon achava que escrevia a verdade histórica, e talvez também fosse este o sentimento dos autores do Gênese; tais obras, porém, são lidas hoje como ‘fatos’ por alguns, e como ‘ficção’ por outros...” “A literatura inglesa do séc. XIX geralmente inclui Lamb (mas não Bentham), Macaulay (mas não Marx) e Mill (mas não Darwin ou Herbert Spencer).”
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Terry Eagleton continua: "Talvez a literatura seja definível não pelo fato de ser ficcional ou 'imaginativa', mas, como apresentavam os formalistas russos, porque emprega a linguagem de forma peculiar. Na rotina da fala cotidiana, nossas percepções e reações à realidade se tornam embotadas e apagadas. Assim, o discurso literário torna estranha, aliena a fala comum; ao fazê-lo, porém, paradoxalmente nos leva a vivenciar a experiência de maneira mais íntima, mais intensa. Estamos quase sempre respirando sem ter consciência disso; como a linguagem, o ar é, por excelência, o ambiente em que vivemos. Mas se de súbito ele se tornar denso, ou poluído, somos forçados a renovar o cuidado com que respiramos, e o resultado disso pode ser a intensificação da experiência de nossa vida material. Lemos o bilhete escrito por um amigo, sem prestarmos muita atenção à sua estrutura narrativa; mas se uma história se interrompe e recomeça, passa constantemente de um nível narrativo para outro, e retarda o clímax para nos manter em suspense, adquirimos então a consciência de como ela é construída, ao mesmo tempo em que nosso interesse por ela se intensifica.

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Por outro lado, a idéia de que existe uma única linguagem 'normal', uma espécie de moeda corrente usada igualmente por todos os membros da sociedade, é uma ilusão. Qualquer linguagem em uso consiste de uma variedade muito complexa de discursos, diferenciados segunda a classe, região, gênero, situação, etc., os quais de forma alguma podem ser simplesmente unificados em uma única comunidade lingüística homogênea.

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Pensar na literatura como os formalistas o fazem é, na realidade, considerar toda a literatura como poesia. Mas o que dizer das piadas, dos slogans e refrões das torcidas de futebol, das manchetes de jornal, dos anúncios, que muitas vezes são verbalmente exuberantes, mas que, de um modo geral, não são classificados como literatura? Uma luz no fim do túnel sugere que a 'literatura' pode ser tanto uma questão daquilo que as pessoas fazem com a escrita, como daquilo que a escrita faz com as pessoas. Quando o poeta nos diz que seu amor é como uma rosa vermelha, sabemos, pelo simples fato de ele colocar em verso tal afirmação, que não lhe devemos perguntar se ele realmente teve uma namorada que, por alguma estranha razão, lhe parecia ser semelhante a uma rosa. Ele nos está dizendo alguma coisa sobre as mulheres e sobre o amor em geral. Poderíamos dizer, portanto, que a literatura é um discurso 'não-pragmático'; ao contrário dos manuais de biologia e recados deixados para o leiteiro, ela não tem nenhuma finalidade prática imediata, referindo-se apenas a um estado geral de coisas. Contudo, mesmo em se considerando que o discurso 'não-pragmático' é parte do que se entende por 'literatura', segue-se dessa 'definição' o fato de a literatura não poder ser, de fato, definida 'objetivamente'. A definição de literatura fica dependendo da maneira pela qual alguém resolve ler, e não da natureza daquilo que é lido.

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Outro ponto importante é notar que os julgamentos de valor parecem ter, sem dúvida, muita relação com o que se considera literatura, e o que não se considera. Contudo, se por um lado aceitamos a sugestão de que 'literatura' é um tipo de escrita altamente valorizada, por outro temos que abandonar a ilusão de que a categoria 'literatura' é 'objetiva', no sentido de ser eterna e imutável. O próprio termo 'valor' é um termo transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos. Assim, o fato de sempre interpretarmos as obras literárias, até certo ponto, à luz de nossos próprios interesses – e o fato de, na verdade, sermos incapazes de, num certo sentido, interpretá-las de outra maneira – poderia ser uma das razões pelas quais certas obras literárias parecem conservar seu valor através dos séculos. O que queremos dizer é, em outras palavras, que todas as obras literárias são 'reescritas', mesmo que inconscientemente, pelas sociedades que as lêem.

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A estrutura de valores, em grande parte oculta, que informa e enfatiza nossas afirmações fatuais, é parte do que entendemos por 'ideologia'. Por 'ideologia', Eagleton explica que a maneira pela qual aquilo que dizemos e no que acreditamos se relaciona com a estrutura do poder e com as relações de poder da sociedade em que vivemos. Ele não entende por 'ideologia' apenas as crenças que têm raízes profundas, e são muitas vezes inconscientes; considera-a, mais particularmente, como sendo os modos de sentir, avaliar, perceber e acreditar, que se relacionam de alguma forma com a manutenção e reprodução do poder social.

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Assim, segundo Terry Eagleton, em seu livro Teoria da Literatura, se não é possível ver a literatura como uma categoria 'objetiva', descritiva, também não é possível dizer que a literatura é apenas aquilo que, caprichosamente, queremos chamar de literatura. Isso porque não há nada de caprichoso nesses tipos de juízos de valor: eles têm suas raízes em estruturas mais profundas de crenças. Eles se referem, em última análise, não apenas ao gosto particular, mas aos pressupostos pelos quais certos grupos sociais exercem e mantêm o poder sobre outros."
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Fonte:
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura. São Paulo, 1985.

2 comentários:

André Assunção disse...

Ah! Legal, gostei do seu blog também. Você parece ter uma boa postura dentro do que chamamos de arcabouço intelectual, ou seja, demonstra, pelo que percebo, uma fuga das idéias de sujeição da "verdade ciêntífica" e das postulações inerentes às 'autorizações' corroboradas pelas instituições que efetivam [em relação sincrônica com a possibilidade aberta do 'socius'] a forma do poder - mesmo que ele varie infinitamente em sua instância de manifestação. Depois conversamos.

Como descobriu meu blog?

Até mais.

Sheila Morato disse...

:D Garimpando a internet... rsrs

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