sábado, 10 de abril de 2010

Ao mestre com carinho

                             

Memorial

     Desde que ingressei no mundo do aprendizado estudei em escola pública e é do antigamente chamado “jardim de infância” que vêm as primeiras lembranças dos professores que tive. A professora Delair era considerada boazinha pela maioria dos alunos e inventava nomes carinhosos para nos conquistar. Ainda hoje me lembro do primeiro dia de aula, do uniforme azul e branco de tergal, das mesas e cadeirinhas espalhadas pela sala com painéis enfeitados, do cheiro das massinhas coloridas que usávamos para modelar bichinhos e tudo o que a nossa imaginação desejasse. Como tenho uma pinta em meu rosto, a professora Delair costumava brincar que eu havia comido feijão antes de ir para a aula e que uma casca ficara presa em meu rosto. Todos sempre achavam graça dessa brincadeira, exceto eu. Certa vez, no dia do índio, nós fizemos cocares de cartolina e, após o recreio, ela resolveu pintar nossos rostos com tinta guache, como se fôssemos pequenos indiozinhos. Não gostei da brincadeira e, nesse dia, andei cabisbaixa, constrangida, até chegar em casa. Lembro que era uma criança mais “séria” do que a maioria e não gostei do fato de a professora não ter respeitado a minha vontade de não participar da brincadeira. Na metade do ano, houve mudanças na Escola Estadual Kennedy (hoje Anita Brina Brandão), e as salas do pré-primário foram reorganizadas e divididas em novas turmas. Eu acabei ficando na sala da professora Vera, que tinha fama de ser brava e exigente. Sei que para mim foi um momento difícil, porque a nova professora começou a nos ensinar a ler e a escrever. Quando a minha mãe me ajudava a juntar e a ler os cartões com diversas sílabas, eu chorava e chorava, acreditando que não conseguiria acompanhar os outros alunos. Depois de certo tempo, percebi que as palavras vinham com facilidade e a sensação de “enxergar” o mundo de um jeito novo me fez sentir bem comigo mesma. No entanto, uma outra realidade se desdobrou para aquele grupo de crianças. Houve também uma separação de “classes” que a maioria dos alunos não percebeu: as crianças mais pobres ficaram na turma da professora Delair, enquanto as outras ficaram na sala da professora Vera. Lembro-me que no final daquele ano, a professora Delair mantivera-se nas atividades de colorir, ligar e colar, ao passo que todos os alunos da professora Vera terminaram o ano lendo e escrevendo. Hoje vejo que a trajetória dos alunos das duas turmas foi afetada seriamente por esse episódio, pois as turmas eram conhecidas como “fracas” ou “fortes”.

     No ensino médio, fui estudar no Colégio Municipal Marconi, onde permaneci até o final do 2.o grau. Na antiga 5.a série, conheci o professor José do Patrocínio, da aula de Português. Lembro-me que todos o achávamos uma “figura”. Ele sempre usava um jaleco branco durante as aulas, tinha à mão uma pequena vareta de madeira para apontar para os exercícios no quadro, e, quando, no momento da chamada, nos perguntava se havíamos feito o “para casa”, exigia que lhe respondêssemos de volta: “Fí-lo!” Ao mesmo tempo em que era sério e exigente, ele também sabia ser engraçado e amigável. Ele já era idoso naquela época – há mais de 20 anos atrás –, mas, ainda assim, às vezes me pego imaginando com nostalgia se ele ainda anda por aí com o seu inusitado jaleco branco. Até hoje, sempre que escrevo palavras como “ascensão”, “excesso” e “seção”, lembro, com um sorriso, dos ditados que ele nos aplicava. Era o terror de muitos alunos. No entanto, o seu modo disciplinado e consistente de ensinar despertou em mim o interesse pelo português e acredito que, em grande parte, influenciou também a minha escolha pelo estudo de línguas.

     A professora Marlene, da Biologia, era uma mulher baixinha, de longos cabelos castanhos, que não se deixava intimidar pelos alunos do 1.o ano do 2.o grau. Muito organizada em relação ao planejamento das aulas e à seleção dos temas a serem estudados, ela não se restringia ao ambiente da sala de aula. Sempre que possível, ela nos levava ao laboratório para realizarmos pequenas experiências e exames nos microscópios ou, então, trazia slides, transparências e filmes para ilustrar as estruturas, os processos de desenvolvimento dos seres e a organização dos reinos na natureza. A professora Marlene falava com clareza e em detalhes, estava sempre disposta a esclarecer nossas dúvidas e demonstrava um real interesse em nosso aprendizado. Sempre fui fascinada por Biologia. Com ela, no entanto, o volume de informações parecia ser mais fácil de ser assimilado.

     Na minha carreira como profissional da área de ensino, pretendo colher um pouquinho dos bons exemplos que tive e passar adiante para meus alunos. Embora os tempos tenham mudado e a geração de hoje conte com a tecnologia da informática e da internet para facilitar a transmissão do conhecimento, considero imprescindível a orientação segura e acessível do professor em sala de aula. Não é uma tarefa fácil. Muitas vezes, as barreiras sociais, econômicas e políticas são um fator complicador. Todavia, não podemos nos esquecer que a educação é o instrumento que desperta o pensamento crítico para a realidade do mundo e o principal elemento na construção de uma nação forte, com igualdade.

Trabalho desenvolvido na aula de Didática da Licenciatura, março de 2010.
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