sábado, 12 de junho de 2010

"A Metamorfose" de Franz Kafka


        Hoje aconteceu minha apresentação do “Projeto do Leitor”, no curso de línguas do CENEX. Escolhi uma obra do escritor Franz Kafka, que gostaria de partilhar com aqueles que apreciam literatura. Fiz um breve resumo de alguns dos dados biográficos do autor e também deixo aqui algumas informações a respeito do livro “A Metamorfose”, que foi publicado pela primeira vez em 1915.
        Ficcional, o texto é uma prosa narrativa organizada no formato de novella ou o que pode ser identificado como sendo um curto romance. O trabalho revela-se como uma obra modernista devido ao seu conteúdo de questionamento, imaginação poética e visão surrealista do mundo.
        Kafka é considerado um cânone no mundo ocidental e até os dias atuais seu trabalho é objeto de estudo e discussão nos meios acadêmico, filosófico, literário e popular. Uma curiosidade sobre esse autor é que a maior parte dos seus trabalhos foi publicada postumamente. De fato, Kafka pediu ao seu amigo Max Brod que destruísse todos os seus manuscritos após a sua morte. Felizmente, Brod não aceitou tal idéia e, ao contrário, as publicou para o conhecimento e apreciação do mundo.
        Franz Kafka nasceu de pais judios em Praga no ano de 1833. Ele falava tcheco e alemão e estudou numa universidade alemã, onde recebeu o doutorado em Direito no ano de 1906. A maior parte da sua vida, trabalhou como funcionário público numa companhia de seguro estatal. Kafka dedicou-se à literatura e aos seus escritos no tempo que lhe sobrava disponível e costumava dizer que “era constituído de literatura”. 
        Acredito que o escritor possuía uma alma em eterno conflito com o mundo e consigo mesma. - E quem não a tem assim? - Sua vida foi marcada por relacionamentos conflituosos, como o que teve com seu pai – um homem de temperamento forte e dominador – e com as mulheres que passaram por sua vida: Felice Bauer, de quem foi noivo por duas vezes; Milena Jesenská, que ficou muito ligada a ele em 1920; e Dora Diamant, uma jovem judia que permaneceu ao seu lado durante o seu último ano de vida.
        Kafka morreu de tuberculose em 1924.
        Em “A Metamorfose”, narrada em 3.a pessoa, o leitor entra em contato com a estória do caixeiro viajante, Gregor Samsa, que, da noite para o dia, se vê transformado numa barata gigante. A descrição dessa transformação, encontrada no livro fonte do meu estudo, é a seguinte:

        “Ele deitou sobre a armadura dura das suas costas e, levantando um pouco a cabeça, conseguiu olhar
        – dividida em costelas crescentes em forma de segmentos – a expansão da sua arqueada, barriga
        marrom. Suas numerosas pernas, pateticamente frágeis em contraste com o resto dele, acenavam
        debilmente diante de seus olhos”.

 Outro fato interessante envolvendo essa obra literária diz respeito à tradução da palavra ungeziefer, de origem alemã, cujo termo geral muitas vezes é usado coloquialmente com o significado de “inseto”. Assim, algumas editoras traduzem a palavra como sendo “besouro”, outras como sendo “barata”. Seja lá qual for o seu significado, o que fica patente na estória é que a intenção de Kafka foi exatamente convencionar a sensação de desgosto vivenciada por Gregor diante da sua transformação radical.
        Em “A Metamorfose”, Gregor é obrigado a trabalhar nesse emprego que ele odeia, porque seu pai, o Sr. Samsa, deve uma quantia em dinheiro ao seu chefe. A princípio, Gregor resiste a qualquer reconhecimento da sua mudança, que, ele acredita, não é nada mais do que uma situação temporária. A única preocupação que ele tem em mente é como chegar ao trabalho a tempo, arrastando consigo aquele corpo que ele não sabe nem mesmo como movimentar. No entanto, devido à sua transformação física, Gregor vê-se incapacitado de usar a própria voz para se comunicar com os outros, que não se dão conta de que ele ainda continua consciente de tudo o que se passa ao seu redor. Após o ocorrido, sua família o mantém isolado no quarto e, aos poucos, o leitor vai tomando conhecimento de que há várias circunstâncias incongruentes ocorrendo nesse núcleo familiar. Ao final da obra, fica patente que Gregor não é o único a sofrer uma metamorfose.
        As principais personagens da estória são Gregor; seu pai, um homem idoso e acomodado -; sua mãe, uma mulher incapaz de lidar com a nova condição do filho -; e Grete, a irmã mais nova de Gregor – aspirante a violinista -, que se torna a protetora do irmão, logo após a transformação.
        O clímax ocorre quando Gregor é finalmente rejeitado por sua família. Sua irmã usa as seguintes palavras para expressar seu desagrado:

        “Nós temos que dar um jeito de nos livrar disso. Nós fizemos tudo humanamente possível para cuidar
        disso e dar comida e abrigo para isso; ninguém pode nos censurar de nada.”

Vale a pena lembrar que "A Metamorfose" já ganhou diversas versões nos mais variados meios artísticos: pinturas, literatura, cinema, etc.
        Vejo “A Metamorfose” como sendo o "quadro" que Kafka pintou para ilustrar as limitações que advêm da condição humana. Através das imagens de alienação e situações absurdas, ele apresenta o mundo como sendo um lugar de incertezas onde muitas vezes o amor não é suficiente. Analisando-se a questão desta perspectiva, interpretar o mundo afasta ou torna irrealizável a existência do ideal. As relações sociais são mostradas como um modo de exercer poder e controle e o sentido inconstante de identidade cria uma sensação de deslocamento diante do mundo.       
        Concluo este post, com a transcrição de um dos críticos de Kafka, Hofmmann, que diz:

        “Kafka é um autor para ser lido não somente por especialistas. Você não precisa passar por nenhum
        treinamento para se preparar para ele. O seu modo criativo não pressupõe nenhum conjunto de
        conhecimento externo à sua criatividade. Você não precisa particularmente ter uma disposição literária
        para lê-lo. Ele é formal, mas não hostil.”

Hofmmann pensa na obra de Kafka como sendo um perfeito trabalho de arte literária, tão acessível quanto estranho e tão estranho quanto acessível.

Clicando no título acima, você pode visualizar o PowerPoint que criei para essa apresentação.
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