segunda-feira, 12 de julho de 2010

"Desabafo de uma mulher moderna" by Sheila Morato


Há vários meses vinha pensando em escrever este artigo. Decidi, finalmente, fazê-lo, após receber por email um powerpoint intitulado “Desabafo de uma mulher moderna”, cujo teor é, para dizer o mínimo, machista, equivocado e ultrajante, pois situa a mulher como uma criatura cuja função é ornamentar o ambiente, procriar, e cuidar dos filhos e da casa; um ser que não precisa “colocar o cérebro pra funcionar” e que – aqui entra o meu comentário crítico - deve ser alimentado e cuidado, do mesmo modo como fazemos com um bicho de estimação. Pior, o ppt está sendo amplamente divulgado na internet. Ele foi “supostamente” criado por uma mulher; repassado a mim por uma amiga; originalmente, encaminhado para uma lista com um grande número de mulheres; e, ainda, consta na categoria “risos”. Eu pergunto: é possível alguém rir de um comentário como esse “Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a matriz das feministas que teve a infeliz idéia de reivindicar direitos à mulher e por quê ela fez isso conosco que nascemos depois dela”? Infelizmente, numa sociedade como a nossa, a resposta é sim.

Fico sempre pensando até que ponto o discurso patriarcal está incutido em nossas mentes, sem que sequer nos demos conta... Perpetuamos, deste modo, o ciclo ideológico, passando o pensamento de geração para geração e aceitando a dicotomia de gêneros como uma verdade universal, quando o objetivo presente nas entrelinhas é instituir a supremacia de um sexo sobre o outro para manter o status quo dessa relação de poder.

Para embasar o meu argumento, selecionei o texto Psicologia e Conhecimento, da professora Maria Helena Fávero (2005), que apresenta algumas perspectivas esclarecedoras sobre como as idéias sociais, políticas e culturais são ideologicamente construídas na interação entre os seres humanos. Não entrarei aqui na discussão da área da Psicologia que busca por uma confirmação quanto ao funcionamento da mente humana – se ela é regida por uma construção individual ou sociocultural –, pois acredito que a mente humana é influenciada por ambos os aspectos. O que quero salientar, todavia, é que o discurso da ideologia masculina prevalece, porque é alimentado pelas circunstâncias sociais, culturais e políticas, que impõem os códigos de conduta determinantes dos atributos específicos de cada gênero, masculino e feminino.

Já no século XIX, muitas teorias fundamentavam-se na ótica do raciocínio positivista, como podemos observar nessa passagem do texto:

Em 1975, Shields, num artigo intitulado Funcionalism, Darwinism and the psychology of women, que se tornou clássico no estudo da psicologia do gênero, analisa a influência da teoria evolucionista no estudo da psicologia da mulher. Segundo ela, essa influência pode ser traçada segundo duas linhas conceituais principais. A primeira, com ênfase no fundamento biológico do temperamento, conduz à discussão sobre o chamado instinto materno; a segunda, baseando-se na justificativa para o estudo dos indivíduos, abre as portas para o estudo das diferenças entre os gêneros segundo as habilidades sensório, motor e intelectuais. A ênfase do determinismo biológico, salienta a autora, provê ampla razão científica para catalogar as diferenças “inatas” em diferenças de natureza feminina e de natureza masculina.

A análise de Shields é extensa e recupera as teses desenvolvidas a partir dos fundamentos do evolucionismo, segundo as quais se defendia, com base em argumentos biológicos e fisiológicos, a inferioridade feminina e a superioridade masculina tanto do ponto de vista físico como do ponto de vista intelectual. É assim, por exemplo, que Francis Galton, aliás primo de Darwin, em 1907, defendia que a maior variabilidade da espécie estava no homem, o que significava que ele “carregava” a evolução e, portanto, era superior em relação à mulher (hoje, sabemos pelo desenvolvimento do estudo da genética humana que essa tese não é verdadeira).

O discurso “científico” criado a partir dessa tese era, em resumo, que a genialidade é um traço masculino; o homem, como possuidor desse traço, galga naturalmente as posições de poder e prestígio por meio da virtude e do talento, enquanto essas mesmas habilidades não podem ser esperadas da mulher, uma vez que sua educação deve ser consoante com seus talentos para ser esposa e mãe. O modelo educacional proposto por Stanley Hall em 1906 para as meninas tinha por base essa mesma tese e esse mesmo discurso (Shields, 1975).

Do mesmo modo, Thorndike, em 1914, ao considerar os instintos peculiares para cada sexo as fontes primárias das diferenças sexuais, defende a existência de um instinto próprio à mulher, o instinto à submissão e ao comando, validando assim a norma social de dependência da mulher e ao mesmo tempo considerando o comportamento assertivo da mulher como contra a sua natureza (Schields, 1975, p. 750).

No século XX, no período pós Segunda Guerra Mundial, foram exatamente esses argumentos que convenceram as mulheres, que trabalhavam nas fábricas e escritórios para suprir a mão-de-obra masculina empregada na guerra, a retornar para seus afazeres domésticos como “rainhas do lar” e principais responsáveis pela criação dos filhos (claro, porque elas tinham que devolver seus cargos para os homens que estavam voltando da guerra, e melhor seria que isso ocorresse de forma pacífica e cordata) abdicando, assim, da carreira profissional e independência financeira que começavam a descobrir e desfrutar. Ao menos foi o que aconteceu nos ditos países desenvolvidos – e veja que aqui nem menciono o contexto da realidade social brasileira à época, quando a maioria da população era rural, vivia à luz de lamparina e fazia uso do fogão a lenha –. Como “compensação”, a indústria e o comércio passaram a visar a população feminina como um mercado consumidor em potencial. Nas revistas e casas com aparelhos de televisão, eram comuns comerciais com donas de casa bem vestidas e sorridentes demonstrando seus fogões, geladeiras e modernos aparelhos eletrodomésticos. Além disso, como artifício de instrumento psicológico, existiam até mesmo manuais de etiqueta e bom comportamento.

Hoje, em pleno século XXI, afirmo sem receio que, infelizmente, os mesmos argumentos do passado são ainda aceitos por muitos homens e mulheres. No entanto, não podemos deixar de reconhecer que "a sociedade vem passando por inúmeras mudanças importantes, seja no campo político, educacional, social e cultural" (esses foram temas discutidos pela prof. Walkyria Monte Mór, da USP, em palestra apresentanda na FALE/UFMG, em 02/07/2010). Por exemplo, não estamos mais em tempo de guerra fria ou de ditaduras; a democracia, agora, é o sistema político vigente no Brasil e em muitos outros países. Hoje, “a escola pública é para todos”, mesmo que o sistema educacional existente não possua uma estrutura sadia capaz de conferir um ensino de qualidade para os alunos da classe de baixa renda. Atualmente, a noção que se tem de família não preenche mais aquele molde tradicional de décadas atrás; ela reestruturou-se para abarcar a pluralidade de relacionamentos envolvendo o casal, e a figura paterna, muitas vezes, não é mais aquela detentora do papel de autoridade. O mundo, antes limitado pelo espaço de suas fronteiras física, hoje tornou-se um lugar globalizado e inteiramente conectado pela evolução da tecnologia e da internet.

Diante de todos esses fatos, não podemos negar que tanto o papel da mulher quanto o papel do homem tem mudado ao longo dos anos. A mulher, finalmente, conquistou o mercado de trabalho e hoje está presente em quase todos os setores que antes eram predominantemente ocupados pelos homens. Ela já é maioria nas universidades, ocupa cargos de alto escalão em diversas companhias e vem ganhando cada vez mais espaço graças à sua competência, garra, determinação e inteligência. O homem, acompanhando as transformações à sua volta, também tem buscado se adaptar à nova realidade do contexto familiar. Muitos deles apóiam a busca de suas companheiras por uma carreira profissional e dividem as tarefas em casa, partilhando diretamente da responsabilidade na criação dos filhos e tomando a iniciativa também nos afazeres domésticos. O casal desempenha, assim, uma união que equilibra o esforço de ambos no objetivo comum de viver bem e em harmonia, sem segregação ou rebaixamento de um em relação ao outro. Os dois entendem que num relacionamento, ninguém é melhor do que ninguém – os dois se complementam e os papéis se sobrepõem.

Mas você, leitor, com certeza deve estar pensando, “mas não é assim que as coisas funcionam! O mundo não é esse lugar perfeito”, e eu mesma concordo com tal afirmativa. O mundo não é o lugar ideal que gostaríamos que fosse. Nele reinam conflitos e impera uma falta de ordenação que quase beira o caos. Como não existe a perfeição, mulheres e homens enfrentam a cada dia o seu quinhão de adversidades. Assim é que, a despeito de toda a luta da mulher para alcançar os seus direitos e conquistar o seu lugar no mundo, ela ainda é alvo de piadas depreciativas; ela ainda recebe salários menores do que aqueles pagos a homens ocupando a mesma função e desempenhando a mesma carga horária; depois de uma jornada inteira de trabalho fora de casa, ela tem que se desdobrar para cuidar dos filhos e também da manutenção da casa; ela sofre violência física, violência psicológica, violência moral. Mas, se estamos vivendo numa sociedade moderna e esclarecida, como acreditamos, não deveria haver motivos para os homens se sentirem ameaçados na sua masculinidade, no seu ego de macho, pelo fato das mulheres provarem que tem tanto valor quanto eles, certo? A idéia retrógrada de que eles se tornariam fracos ou afeminados por cuidar dos filhos e da casa não deveria existir mais, concorda? Mas o que acontece é exatamente o contrário. Boa parte da população masculina ainda acredita nessas idéias. Por isso, o preconceito contra a mulher ainda é uma realidade. Como os homens possuem uma estrutura física avantajada e agressiva, muitos pensam que tem direito de posse sobre a mulher, acreditam que podem dominá-la pela força – seja física ou psicológica –, para, assim, afirmar a sua “superioridade”. Assim, a mulher torna-se objeto da “apreciação” masculina, do mesmo modo como o são carros, bebida e futebol. A todo momento, vemos exemplos disto na televisão, nas novelas, nos comerciais publicitários, nos filmes, nos seriados de tv. O seriado da tv americana “Two and a half man”, por exemplo, ilustra claramente essa discrepância pejorativa entre os sexos. Todos riem. Todos acham graça. Todos aceitam os estereótipos apresentados e ninguém questiona os papéis instituídos por nossa sociedade – uma sociedade opressivamente patriarcal.

O assunto é tão mais complexo do que se imagina, que aqui não estou nem mesmo enfocando a questão alarmante da violência doméstica, que, de acordo com uma estatística recente divulgada pelo Bom Dia Brasil (Rede Globo, em 12/07/2010), revela que, no Brasil, 10 mulheres são assassinadas a cada dia. Isto, considerado como dado oficial. Mas e aqueles outros casos em que a mulher sofre calada e nem mesmo registra queixa na polícia? A falta de conhecimento sobre os direitos já adquiridos – como a Lei Maria da Penha, que está em vigor desde 2006 – e outros fatores, como medo, coação, sentimento de menos valia, filhos, dependência emocional e/ou financeira em relação ao parceiro, etc., concorrem para explicar o porquê da omissão em se denunciar os abusos; no entanto, tal atitude só faz agravar a situação e perpetuar a impunidade.

A realidade é que o discurso patriarcal é tão insidioso, que, muitas vezes, nem mesmo as mulheres se dão conta da relação de poder que permeia nossas vidas. Elas se tornam, assim, muitas vezes, coniventes com o próprio sistema. A baixa auto-estima e a sugestão de que não somos capazes o suficiente para vencer obstáculos sem o apoio de um homem, por exemplo, nos levam a internalizar essas inverdades e a nos encararmos umas às outras como competidoras em potencial. Como resultado, mulheres demonstram preconceito entre si, pelos mesmos motivos citados acima em referência aos homens. Sem perceber, elas repetem e reafirmam o padrão social esperado. Seria uma coincidência que o número de cirurgias para implante de próteses mamárias, plásticas, botox e lipoaspiração tem crescido tanto? Quem instituiu a ditadura e o culto ao corpo perfeito? E o que dizer, quando símbolos da música mundial como Madonna, Lady Gaga, Beyoncé e Shakira, por exemplo, despertam a atenção do público para a imagem da mulher-objeto? ...Seguindo nessa direção, criamos nossas filhas embaladas por contos de fadas e rodeadas por roupas e objetos cor-de-rosa, bonecas Barbie e brinquedos que imitam utensílios domésticos. Na contramão, criamos nossos filhos ao embalo de partidas de futebol, dos incentivos para se tornarem grandes “pegadores” e para não se preocuparem em executar as tarefas da casa, pois “isso não é obrigação de homem”.

Ao longo dos anos, também vemos que os problemas sociais como alcoolismo, drogas e violência tem cada vez mais se agravado. Juntamente com a pobreza, é como se o mundo, ao invés de progredir, regredisse. Mas a organização familiar, mesmo com as mudanças por que vem passando, continua a representar o esteio capaz de gerar, orientar e prover o desenvolvimento individual e coletivo de mulheres e homens. Para isso, aqueles que são responsáveis pela criação de uma criança não devem negligenciar ou se esquecer da questão da autoridade. Não confundamos aqui autoridade (persuasão através do exemplo e de argumentos) com autoritarismo (abuso de poder através do terror ou coerção). Muitas vezes, os pais que se ausentam do lar por motivo de trabalho acabam por fazer todas as vontades dos filhos e evitam corrigi-los ou impor-lhes limites, como uma forma de compensação por sua falta ou mesmo para amenizar os seus próprios sentimentos de culpa em relação a isso. Os limites, entretanto, são necessários em nossas vidas para nos dar o sentido de bom senso e de responsabilidade frente às conseqüências dos nossos atos. Por isso, ambos, mãe e pai, mulher e homem, partilham do mesmo grau de importância e de responsabilidade na formação dos filhos. Neste sentido, se há falta de estrutura emocional nos elementos de uma sociedade, essa é uma circunstância inerente ao ser humano e não está, de modo algum, relacionada diretamente à questão de gênero.

Ainda nessa discussão, quero chamar a atenção para o efeito clockwork do capitalismo selvagem, que tenta impingir a idéia de que a mulher, para ser “moderna”, tem que assumir uma postura/atitude competitiva e calculista em detrimento do modelo tradicional, que, durante décadas, fez parte de nossas vidas. Como se, apagando-se essa imagem anterior, ela deixasse de ser importante ou não agregasse mais em si valores de ordem social e cultural. Ou, ainda, como se a mulher moderna, ao sobrepujar a tradicional, simplesmente deixasse de desempenhar tarefas domésticas como cozinhar, lavar, passar, cuidar dos filhos, etc. – jornada dupla que, para muitas de nós, ainda é uma realidade (Monte Mór, 2010).

A questão toda apresentada aqui neste artigo é a seguinte: a mulher não precisa sentir-se obrigada a fazer o que não quer. Se ela se sente feliz e realizada em seguir os passos da avó e da mãe, tudo bem, não há nada de errado nisto. Não há porque ceder à pressão social que teima em nos ditar regras de conduta. Se houve mudanças, não significa que tenhamos que abandonar as nossas tradições, descartando-as como se não representassem mais nada para nós. Por outro lado, a mulher que quer “ganhar o mundo” e, de algum modo, “deixar nele a sua marca”, também tem o direito de trabalhar para fazer a diferença. Portanto, SIM, nós podemos incluir as mudanças em nossas vidas, agregando o novo às nossas tradições. SIM, nós devemos conquistar o nosso lugar, apoiando umas às outras e não nos confrontando como adversárias num campo de batalha. SIM, nós devemos buscar, se não a emancipação como indivíduos, ao menos a independência financeira que possa nos propiciar uma vida melhor e mais digna.

Esse foi o desabafo de uma mulher que não é totalmente moderna e nem radicalmente tradicional, mas que vive entre estes dois mundos encarando cada experiência que surge como uma oportunidade de crescimento pessoal.

Se você acha que o conteúdo deste artigo é relevante, por favor, deixe o seu comentário e passe o link adiante para que outras pessoas possam também partilhar dessas reflexões. Obrigada.



Informações gerais sobre os direitos da mulher:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Maria_da_Penha

Referências
FÁVERO, M. H. (2005) Psicologia e Conhecimento. Subsídios da Psicologia do Desenvolvimento para a análise do ensinar e aprender. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, v. 1. 332 p. (ISBN 85-230-0816-0)
Palestra O ensino de línguas estrangeiras na perspectiva dos letramentos, apresentada pela prof. Walkyria Monte Mór (USP), em 02/07/2010, na Faculdade de Letras da UFMG.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ponto de Vista: "Paixão pela Rússia, um curso de língua de cada vez" by Lela Atwood


Lela Atwood é a moça de olhos claros que aparece na foto ao meu lado. Minha companheira no programa PAW Partners da Baylor University, ela foi a estudante americana que se colocou à disposição e teve interesse em trocar experiências culturais comigo durante o meu período de intercâmbio. Em agosto próximo será a vez dela de sair para intercâmbio e, para contar um pouco da experiência dela com o aprendizado de uma segunda língua, publico neste post o artigo que ela escreveu e foi publicado no "The Lariat Online", http://www.baylor.edu/lariat/news.php?action=story&story=72663 (clique aqui para ver o artigo em inglês).


"Ponto de vista: paixão pela Rússia, um curso de língua de cada vez

Um ano atrás, eu não achava que era capaz de aprender uma língua estrangeira. A idéia de aprender uma segunda língua soava maravilhosa, mas não havia nenhuma esperança para mim. Eu nasci numa família de falantes da língua inglesa e mal tinha tido contato com outras línguas.

Muitas pessoas achavam que aprender uma língua era uma façanha grande demais para uma americana, como eu, tentar. Outros disseram que não havia como alguém aprender uma língua a não ser que ainda fosse criança ou fosse um gênio, duas características que não costumo usar para descrever a mim mesma. O último golpe veio, no entanto, quando tirei C na minha matéria de espanhol.

Quando o sonho dentro de uma pessoa morre, ela tenta lidar com a situação seguindo em frente. Eu colei na minha testa o rótulo de “linguisticamente remediável” e tentei aceitar o fato de que nunca me tornaria uma bilíngüe.

Algo aconteceu, no entanto, que mudou radicalmente a direção da minha vida. Tudo começou com uma busca na internet.

Como eu tinha algum tempo extra durante o verão, decidi procurar por artigos sobre países que eram inimigos dos Estados Unidos. Foi quando conheci a Rússia.

Eu me apaixonei pela grandeza dos antigos russos, pela paixão deles pela vida, pela força deles ao atravessar circunstâncias tão duras que a maioria dos americanos mal podia imaginar.

Uma amiga russa que conheci no Facebook me contou que a Segunda Guerra Mundial foi tão traumática para eles, que todos perderam alguém próximo e querido. Depois disso, eles tiveram que lidar com as rápidas mudanças trazidas pela queda da União Soviética, que afeta o povo até hoje. Como se o frio glacial, que põe o frio do Texas no chinelo, já não fosse o bastante.

Esses artigos também me informaram sobre alguns sofismas que os russos tinham. Se aqueles artigos são precisos, alguns russos são muito supersticiosos, acreditam que apertar as mãos na soleira das portas trás má sorte e acham que mulheres que sentam em banco frio correm o risco de terem os ovários congelados.

Eu vi essas qualidades como cativantes, como quando uma amiga tem manias e suas crendices.

Eu ansiava por encontrar o povo russo, fazer amizade com eles, e conhecer o seu modo de vida. O problema era que eu não sabia russo. Falar com russos que falam inglês e usar intérpretes pode ter suas vantagens, mas eu percebi que para aprender sobre a alma russa eu precisaria primeiro aprender a língua. E isso me assustou.

Algumas pessoas dizem que Deus não existe. Outras dizem que se há um Deus, ele nos olha lá de cima e não se importa com nossos problemas cotidianos. Tudo o que posso dizer é que só Deus pode soprar a vida em sonhos mortos, abandonados. E foi exatamente isso o que aconteceu comigo.

À medida em que o verão progredia, eu tive este estranho desejo de aprender a ler cirílico, o alfabeto que os russos usam. Então, vieram as lições de russo em CD e os cartões com palavras e números. Cada nova letra, palavra ou sentença era motivo de celebração e me levava a um passo mais próximo de dominar a língua.

Eu decidi, uma semana antes das aulas começarem, a me matricular no curso de russo, embora questionasse seriamente a minha escolha. Estudar num ambiente acadêmico tiraria de mim a alegria de aprender russo? Eu falharia outra vez? No final, ficou claro que essa foi a melhor escolha que já fiz.

Dra. Adrienne Harris foi minha primeira professora de russo. Ela é do tipo de professora que aproveita o tempo de aula ao máximo. Ela esperava que fizéssemos várias páginas de lição de para casa em russo de um dia para o outro e nos colocou para falar sentenças em russo uns com os outros já na primeira semana de aula.

Alguns estudantes podem considerar que isso é trabalho duro demais para uma aula de idioma. Mas não eu. Pela carga de trabalho e estilo de ensinar dessa minha professora, eu sabia que ela acreditava que eu podia falar russo. E isso significou o mundo pra mim. Eu terminei com um A nessa matéria e atualmente estou em outra aula de russo com ela.

Eu sei muito mais agora do que sabia naquele verão em que comecei a buscar o aprendizado da língua russa. E eu saberei ainda mais até o próximo inverno, quando estudarei sozinha no exterior na Universidade de Voronezh, na Rússia; não será fácil, no entanto.

Aprender uma segunda língua e hesitar numa conversação nunca é fácil a princípio. Contudo, quando eu fizer novos amigos em Voronezh, amigos que eu nunca conheceria se não fosse capaz de falar russo, todo o estudo e atividades de para casa terão valido a pena. E um dia eu serei capaz de dizer: Eu sou americana e sou bilíngüe."

Lela Atwood está cursando seu último ano de jornalismo e é repórter do Baylor Lariat.

Blog da Lela Atwood: From Russia With Love.
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