terça-feira, 21 de setembro de 2010

Laranja Mecânica



Uma análise por Sheila Morato

O filme Laranja Mecânica, dirigido por Stanley Kubrick em 1971, é considerado um clássico pelo seu aspecto visionário e pelo teor crítico feroz que lança sobre um sistema político, social e cultural, que até nos dias atuais tem a capacidade de refletir o modo como nossa sociedade se organiza. É visionário, porque, à sua época, vislumbrou o rumo sombrio que as relações de poder descomedidas poderiam atingir. De fato, quarenta anos após o seu lançamento, a história do ultraviolento Alex DeLarge continua sendo uma metáfora para o modo como a juventude muitas vezes é tratada e conduzida. É crítico, porque avalia o discurso político existente por trás das “boas intenções” que, no filme, o governo diz ter em relação ao bem-estar do grande público. Assim, o propósito deste texto é sobressaltar os pontos em que, no filme Laranja Mecânica, percebe-se a articulação entre psicologia, educação e sociologia.

Para falarmos de psicologia, não poderíamos deixar de tocar na questão behaviorista representada na história pelo tratamento de “cura” da psicopatologia revelada pelo personagem Alex, jovem chefe de uma gang, que sente prazer em cometer estupros e atos de extrema violência. O tratamento físico desenvolvido e aplicado com o intuito de diminuir o número de crimes na sociedade londrina assemelha-se às experiências desenvolvidas por Pavlov em cachorros, que tem como princípio básico a idéia de que o homem comporta-se e tem reações semelhantes às dos animais, podendo, portanto, ser condicionado a adotar determinados tipos de comportamento. No entanto, como vimos no filme, o tratamento Ludovico não leva em consideração a consciência do indivíduo, sua condição de livre-arbítrio, ou se sua “regeneração” ocorre devido ao reconhecimento de que seus atos são perniciosos para a convivência em sociedade ou não. Ao contrário, como meio para atingir a desejada “cura”, os políticos e cientistas interessados em tal experiência não demonstram qualquer tipo de sensibilização ética e nem mesmo se inibem por adotarem métodos tão violentos quanto os que foram utilizados pelo próprio Alex em seus atos criminosos. Através do uso controlado de drogas, que induzirão no corpo do paciente um mal-estar intenso, e imagens chocantes de violência durante várias horas e vários dias, eles esperam obter uma resposta física de literal aversão contra a violência. Nesse tratamento, os fins justificam os meios, mesmo se, em concomitância, eles acarretarem punição para o paciente. No filme, Alex não se sentiu abalado pelas imagens de violência, mas sentiu horror quando a música de Beethoven, que era a sua favorita, surgiu para condicioná-lo de forma negativa, livrando-o da única coisa que o satisfazia de modo inofensivo. A crítica de Kubrick contra a ciência moderna está presente principalmente na segunda metade do filme, mas configura-se ostensivamente irônica no último instante, quando o protagonista afirma “Agora eu estou curado”, referindo-se ao fato de que, na sua tentativa de suicídio, houve a extinção do condicionamento Ludovico, cujo objetivo era cercear sua natureza interior, sem, no entanto, resgatá-la de fato.

O tema educação também adquire uma dimensão importante em Laranja Mecânica. Podemos analisar essa questão do ponto de vista do relacionamento que Alex tem com os pais, pelo modo como ele é tratado na prisão e pela metodologia que é aplicada durante o tratamento Ludovico. A crítica à família moderna, apegada ao consumismo e ao “viver de aparências”, pode ser observada já no estereótipo do casal que atua como a família de Alex...
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