quinta-feira, 21 de abril de 2011

Atenção: Anfíbios Trabalhando

 
Lutando pra vencer o cansaço de último semestre de curso - aliado a estágio obrigatório (essa é uma outra looonnga história!), mais aula particular, mais aula em curso de idioma, mais uma jornada tripla de tarefas em casa - ufa! -, dou boas vindas ao tão esperado e oportuno feriadão.
Folheando um dos livros que ganhei da FALE na semana passada, encontrei essa crônica, que achei interessante, embora a princípio tenha pensado na metáfora utilizada pelo escritor de um ponto de vista um tanto diferente... No meu caso, a terra seria a Literatura/Universidade e a água seria o mundo cão aqui fora... rsrs Anyways, sempre há possibilidade para novas interpretações...


Atenção: Anfíbios Trabalhando
   Luiz Antonio de Assis Brasil
Escritor e professor
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Vamos esquecer aqueles veículos brutalhões, em geral militares, em geral camuflados, que se desempenham tanto na terra como na água. Esses anfíbios são quase sempre assassinos. Pensemos em algo mais doce, nos bichos que, de acordo com seus humores, vivem em vários ambientes. Apetece-lhes variar, tomar novos ares, conhecer novas paisagens. Podem, é certo, sofrer algum problema de identidade, mas quando estiverem em muita dúvida, “quem sou eu? onde estou?” basta dar um salto para a água – ou para a terra – e fica tudo resolvido. Até que venha nova crise.
Compartilhando com os anfíbios a mesma dualidade, há alguns indivíduos da espécie homo sapiens. São poetas, contistas, romancistas, cronistas, essa gente perdida e desvairada, que em certo momento da vida, por circunstâncias às vezes enigmáticas para si próprios, atraíram-se pela Universidade – e a Universidade os aceitou. Ou vice-versa, porque nesse ramo da biologia  não se sabe o que veio antes, se o sapo ou o ovo.
Como sapo não reflete, ou reflete à maneira batráquia, o homo sapiens (ou mulier sapiens) tem o dever de honrar o adjetivo que o qualifica, e como a ANPOLL é uma instituição respeitável, não é adequado estar aqui falando de sapos. O literariamente correto seria pensar em Dr. Jekyll & Mr. Hyde, em Poe, na esquizofrenia de Gérard de Nerval, nos heterônimos de Pessoa, no mise en abîme de Gide, em Todorov, no retrato de Dorian Gray, nas metáforas tipo dois-em-um, tudo enfim que lembre o tema do duplo e que tenha
certa dignidade intelectual.
Mas crônica é crônica, e tudo se desculpa, inclusive as tautologias. Assim, assumo uma não-canônica primeira pessoa e vamos lá: reconheço minha condição anfíbia. Para dar nome aos bois: minha terra é a Universidade, e minha água é a minha literatura.
Como todo anfíbio, sei distinguir a água da terra, senão estaria morto. A terra me dá a segurança de que preciso quando as águas estão por demais poluídas pelos devaneios, pelos clichês, pelas rimas na prosa, pela inconsistência de personagens. São aqueles momentos em que eu nado, nado, nado e não saio do lugar. Já a terra tem primores que mais prazer encontro eu nela. Cá, na terra, posso dizer a mim mesmo que meu cérebro serve para outras coisas além de sonhar besteiras. Cá, tenho colegas com quem posso conversar num plano, digamos, científico, enquanto as conversas degringolam com facilidade para o nada e coisa nenhuma, sem falar na decadência dos bares e outros refúgios noturnos pouco salubres. Se cá pode haver invejas, acontecem ódios. Um artigo acadêmico, sob o ponto de vista dos efeitos, é menos perigoso do que um romance. Um artigo será contestado à moda civilizada, com argumentos, contra-argumentos, e só acontece no próximo número da revista, quando os ânimos já esfriaram. Um romance tem resposta imediata, que pode ir de uma ironia a um tiro de bazuca. Um passo em falso e lá vem uma crítica demolidora, que me afoga por um bom tempo. Sapos, tais quais gatos, têm sete vidas, e por isso sei levantar-me, sacudir a água e dar a volta por cima – mas para que isso aconteça, preciso correr para a terra. É duro ser Apolo e Baco ao mesmo tempo.
A vantagem de estar na água é que nela torna-se possível abusar sem remorsos do modo subjuntivo, dos verbos intransitivos e principalmente das orações coordenadas. A vantagem de estar a pé firme é que o sentido da sintaxe se aguça, e uma boa regra sempre nos salva. Condenados à liberdade à Sartre, os escritores-universitários por vezes gritam Meu reino por uma gramática!, mas são respondidos por um silêncio devastador. E às vezes o que falta não é tanto a gramática, mas o talento mesmo.
Ser anfíbio é perdoar Camões pelo al-maminha, pois a gente sabe que nem sempre a melhor expressão literária é a menos cacofônica; é compreender torturas do Machado ao mudar de estética a meio-caminho da obra: aquilo que nos compêndios consta como um erudito registro, custou lágrimas de sangue e noites de insônia ao vizinho do Cosme Velho; ser anfíbio é estar simultaneamente nos dois lados do balcão, envolvido num jogo em que vendemos caro o barato – e achar que deve ser assim mesmo; ser anfíbio é escrever um parágrafo acadêmico sabendo que aquilo poderia ser dito de outra forma, bem menos precisa e mais confusa, mas talvez mais sonora.
Contudo, não me queixo dessa minha condição: assim ocupo-me com mais um problema. Escritores adoram tensões.
É verdade que fica sempre um mal-estar, lá no fundo, algo quase imperceptível, de que se está fraudando alguma coisa, não se sabe bem o quê.
Mas nada que a escrita de um paper ou um capítulo de romance não resolvam.
 
Fonte:
BRASIL, Luiz Antonio de Assis. Atenção:Anfíbios trabalhando. Crônica. Rev. ANPOLL. n. 14. São Paulo. Jan./jun. 2003.
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